31/10/2017 15:00

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Tâmara Figueiredo



Estiveram no programa A Voz do Povo desta terça-feira, 31/10, membros da Associação Mato-grossense de Dislexia, a Gabrieli Andrade mãe de uma criança disléxica e a Patrícia Ribeiro que tem dislexia e estão viajando para algumas cidades de Mato Grosso para levar informações aos pais sobre o distúrbio e o que devem fazer quando os filhos apresentam este transtorno e tem dificuldades na escrita ou na leitura.

Gabrieli diz que tem uma filha com dislexia e diz que muitas pessoas não sabem o que é a dislexia. Muitas vezes a criança é taxada de preguiçosa, que não liga para a escola, e na verdade a criança tem um distúrbio de aprendizagem e isso atrapalha na evolução escolar, na parte emocional da criança, que acaba sendo excluída, se sentindo incapaz e acaba sendo um jovem também excluído, muitas vezes agressivo, deprimido e acaba se tornando um adulto também com problemas.

Ela contou que a filha tinha 9 anos e não conseguia ler e escrever no mesmo ritmo que a maioria dos colegas da escola “E eu sempre me perguntava porque ela não conseguia acompanhar, todo mundo faz as tarefas no tempo adequado. Tarefas que deveriam durar 20,30 minutos, ela levava duas horas para concluir. A fluência da leitura não correspondia a uma criança de nove anos, era muito ruim. Na época procurei muitos profissionais da área, psicólogos, pedagogos, fonoaudiólogos, todos diziam que iria passar, que ela ainda era imatura e isso iria passar. O tempo passou os colegas iam para frente e ela não. Ela começou a ficar em depressão, não queria ir para a escola, não tinha amigos. Através de uma amiga que me informou sobre a ABD – Associação Brasileira de Dislexia, levei ela lá e ela foi diagnosticada com dislexia moderada. Acho que falta informação para que os professores identifiquem o problema”.

Patrícia, de 27 anos, só descobriu o transtorno aos 26 anos. “Sempre tive dificuldades, sempre estive atrás dos colegas, mas isso sempre foi encarado como normal. Tive acompanhamento com professor particular, com psicólogo por conta da baixa autoestima, de ansiedade, mas nunca houve a hipótese de ser um transtorno de aprendizagem. Ainda não havia essa discussão de crianças com esse tipo de problema. Hoje ainda tenho dificuldade na leitura, sou um pouco mais lenta do que as outras pessoas e ainda dou uma gaguejada”.

Os disléxicos são bastante inteligentes, o problema está na parte cognitiva, o entendimento não é prejudicado. Na parte de cópias da lousa, a criança disléxica também sente dificuldades, costumam copiar uma letra de cada vez e isso faz com que a tarefa seja mais demorada.

Contato em Sorriso: 9 9626 – 3634 (Iara).

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Saiba mais sobre a dislexia:

O que são transtornos de aprendizagem? E os distúrbios de aprendizagem?

Transtornos (ou distúrbios) de aprendizagem são condições de origem genética (neurobiológica), específicas a alguma habilidade de aprendizagem, como leitura, escrita ou matemática. Sua manifestação ocorre desde a infância, mas no geral fica mais evidenciada no período escolar. O indivíduo com este transtorno apresenta dificuldades acentuadas e persistentes ao longo da vida, apesar da adequada intervenção recebida, da normalidade do nível intelectual e da ausência de déficits sensoriais.

O termo distúrbio de aprendizagem é sinônimo de transtorno de aprendizagem e a dislexia, é o mais prevalente destes transtornos.

O que é dislexia?

A dislexia é um transtorno específico e persistente da leitura e da escrita, que se caracteriza por um baixo desempenho na capacidade de ler e escrever. É uma condição de base genética, que se manifesta inicialmente durante a fase de alfabetização, porém esta dificuldade se mantém apesar da adequada intervenção recebida, da normalidade do nível intelectual, e da ausência de déficits sensoriais. A persistência de tais sinais e a lenta resposta às intervenções terapêuticas e educacionais é que confirmam a presença desta condição. Porém, somente com estas intervenções adequadas é que o individuo com dislexia pode melhorar seu desempenho em leitura e escrita. As dificuldades podem ser minimizadas utilizando-se métodos pedagógicos alternativos, que se adaptam às dificuldades e necessidades da criança.

O prognóstico depende, ainda, de diversos fatores facilitadores, como a precocidade do diagnóstico, o ambiente familiar e escolar.

É uma condição herdada? Se um dos pais tiver dislexia, obrigatoriamente os filhos também terão?

Estudos tem demonstrado que a dislexia é uma condição de base genética, ou seja, tem natureza hereditária. Existem vários genes envolvidos nesta condição e pesquisadores no mundo todo estão trabalhando para identificar quais são esses genes. Contudo, se um dos pais tiver a condição, não necessariamenteos filhos terão. A herança genética aumenta a pré-disposição para desenvolver a dislexia, ou seja, é maior a probabilidade da criança apresentar o problema caso um dos pais a tenha. Mas, se ela tiver dislexia, vários fatores podem contribuir para atenuar ou reforçar os sinais, como o estímulo que ela tem em casa e o ambiente sócio-cultural, que pode oferecer a ela recursos para lidar com suas dificuldades. O ambiente vai moldar esta tendência genética. Por isso mesmo em gêmeos idênticos a manifestação pode ser diferente.

Quais são os sinais da dislexia?

Os principais sinais observados neste quadro, estão associados à leitura e escrita. Indivíduos com dislexia, geralmente apresentam uma leitura com erros de reconhecimento das palavras, com troca de letras, na qual a leitura de textos não é fluente e sofre alteração de ritmo e entonação (por exemplo, leitura de sílaba por sílaba). Também é comum haver uma dificuldade acentuada na compreensão de textos. A escrita, também é caracterizada por severos erros de ortografia, inversão de letras e/ou sílabas. Habitualmente pessoas com dislexia apresentam uma leitura e escrita com rendimento abaixo do esperado para a idade e a escolaridade. A intensidade dos sintomas varia de caso a caso.

Como é feito o diagnóstico?

Ao ser identificada a dificuldade para o aprendizado da leitura e da escrita, a criança é encaminhada para uma avaliação multidisciplinar.

O diagnóstico multidisciplinar dos transtornos de aprendizagem é realizado por uma equipe composta por profissionais de diversas especialidades. Recomenda-se que a equipe seja constituída por, no mínimo, um psicólogo (ou neuropsicólogo), um fonoaudiólogo, um psicopedagogo e um médico neuropediatra. Com essa equipe atuando de forma integrada é possível investigar com mais precisão os diferentes aspectos envolvidos no processo de aprendizagem. É de extrema importância que a equipe interdisciplinar se reúna e compartilhe os resultados de suas avaliações especializadas para que possa ser fechado um diagnóstico representativo das áreas investigadas. Isso é diferente de realizar diversas avaliações, sem troca de informações entre os profissionais. Neste último caso, podemos ter avaliações parciais, que não representam o conjunto das dificuldades de aprendizagem daquela determinada criança.

O que se deve investigar?

Para diagnosticar este quadro, é importante colher dados do desenvolvimento da criança, investigar como se deu seu histórico escolar (exemplo: processo de alfabetização), complementando estes dados com provas e testes, aplicados individualmente pela equipe. É essencial avaliar os processos de linguagem oral, vocabulário, leitura e escrita, além de habilidades específicas, como a inteligência, atenção, memória, e velocidade de processamento das informações. Isto é feito ao longo de algumas sessões e requer uma analise detalhada.

Existem diferentes níveis de dislexia?

Sim. Atualmente, considera-se uma escala de desempenho contínuo que vai desde casos leves até os severos. Em casos leves, por exemplo, ocorrem alguns erros na escrita, mas a compreensão de texto é menos dificultosa após algumas leituras. Já em casos severos, pode haver uma dificuldade maior desde o processo de alfabetização, acarretando defasagens no desenvolvimento da leitura, escrita e compreensão leitora. No entanto, a compreensão oral (auditiva) está preservada, de maneira que textos ou conceitos transmitidos oralmente podem ser bem assimilados. A escrita de texto também pode ser facilitada por meio de um escriba.

Vale ressaltar que dificuldades de alfabetização são naturais na aquisição do processo. O importante é ter clareza de que dificuldades são pontuais, enquanto que a dislexia apresenta sinais persistentes.

Como é o tratamento?

Cabe reforçar que não há prescrição de medicamentos para quadros de dislexia, e, sim, adaptações pedagógicas aliadas ao atendimento especializado com o profissional da área de saúde (psicólogo, psicopedagogo ou fonoaudiólogo). O tratamento varia de acordo com a dificuldade e maior necessidade da criança ou do jovem.

No início do processo, é possível que as crianças consigam se alfabetizar, apesar da lentidão e das dificuldades. Sempre que possível, vale recorrer a estratégias alternativas, como por exemplo, as multissensoriais. Destacar os sons, ou utilizar figuras e outros elementos visuais, pode auxiliar. O estímulo dos pais e profess ores para melhorar a compreensão de leitura, também é muito importante. Isso pode ser feito ao realizar uma leitura compartilhada, na qual se discute o conteúdo lido trecho a trecho. Vale lançar mão de diferentes estratégias, visando sempre a boa evolução da criança.

A resposta ao tratamento depende da condição geral da criança com dislexia, contudo, a motivação pessoal e a boa estimulação em casa e na escola, são bastante importantes para esse processo.

Quem é o profissional responsável pelo tratamento?

O profissional responsável pode variar, dependendo da dificuldade apresentada pela criança. Ela pode precisar de acompanhamento especializado de um psicólogo, psicopedagogo ou fonoaudiólogo. Entretanto, o tratamento não acontece apenas no contexto da clínica. É necessário o envolvimento da família e dos professores para estimular continuamente a criança.

É possível prevenir a dislexia?

Por se tratar de uma condição com base neurobiológica, observa-se que a dislexia é um quadro que persiste ao longo da vida. Contudo, com um bom acompanhamento é possível minimizar os impactos desta condição. Estudos de intervenção precoce, realizados em vários países, têm nos mostrado que já existem sinais percursores que podem ser identificados no período pré-escolar. Eles ainda não nos permitem confirmar a existência da dislexia, mas nos auxiliam a promover intervenções adequadas desde cedo, que certamente minimizam as dificuldades presentes no quadro.

O diagnóstico precoce e a aplicação de atividades específicas são essenciais. Além disso, quanto antes o transtorno for diagnosticado, menor será a defasagem escolar e os impactos emocionais da criança com dislexia.

A dislexia pode vir acompanhada de outros transtornos?

Sim. A base genética comum favorece o surgimento de outros transtornos de aprendizagem, como a discalculia (dificuldade em aprender e manipular conceitos matemáticos), a disortografia (dificuldade no aprendizado e desenvolvimento da linguagem escrita expressiva), a dispraxia (que afeta a noção de espaço, coordenação e habilidade motora). O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) não é considerado um transtorno específico de aprendizagem, mas, pode afetar o desempenho escolar quando o grau de desatenção é grande, e neste caso o tratamento com medicamento pode ser recomendado. Quando há mais de um transtorno associado considera-se uma comorbidade.