Sorriso FM 99,1

19/04/2010 14:28
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Tâmara Figueiredo - Rádio Sorriso

Um dos mais conhecidos e aclamados escritores da literatura infantil, Ziraldo Alves esteve presente na Primeira Feira do Livro de Sorriso. Além de escritor, Ziraldo é cartunista, chargista, pintor, dramaturgo, cronista, desenhista e jornalista brasileiro. É o criador de personagens famosos, como o Menino Maluquinho, e da Turma do Pererê, entre outros. Ele falou em coletiva, primeiramente, sobre sua impressão de Sorriso. “È por aqui que está o futuro do mundo, porque o mundo está tendo um desenvolvimento extraordinário no lado tecnológico, mas o ser humano tem que comer, tem que vestir, e essa produção tão bem organizada que se vê aqui, sendo o maior produtor de grãos do país e do mundo já da muita esperança pra nós brasileiros. E eu tenho visto uma consciência dos grandes administradores do agronegócio de que o lucro não é o mais importante, é conseqüência de um trabalho. A quantidade de pessoas reunidas numa praça para ver um escritor mostra que essa consciência está crescendo. Mas há pouca informação sobre como vivem vocês, para o Rio e São Paulo, a gente não tem a menor idéia sobre o Mato Grosso moderno, o que está acontecendo nas novas cidades como esta aqui. Certamente vou falar das surpresas que tive aqui. O futuro do Brasil está por aqui. Vocês estão muito bem preparados para ajudar esse país a crescer”.

Como em todo lugar por onde passa, Ziraldo costuma repetir a frase de que “Ler é mais importante que Estudar” e em Sorriso, não foi diferente, também ressaltou a importância da leitura. “A coisa mais importante que a Educação escolar, é a leitura. Tem que preparar as populações para decodificar esse código tão importante que é a escrita, porque toda informação importante que precisa está na escrita. Não existe o ouvi dizer, tem que ta escrito. O livro é que fez o homem andar pra frente. Desde o ano zero, depois de Cristo até o ano de 1500 o homem andava de charrete, passaram 1500 anos o ser humano já tinha escrito livros, mas continuava a andar de carroça. Quando o Gutenberg inventou a imprensa, o livro pode cair na mão de todo mundo. O que permitiu isso foi a palavra gravada.  O livro é a parte mais importante da educação e por onde me chamarem pra eu vou dizer que ‘Estudar é muito importante, mas ler é mais importante ainda’, eu vou”.

Faltando 2 anos para completar 80 anos, Ziraldo ainda hoje colabora em diversas publicações  e diz que continua tendo inspirações para escrever novas obras...

“Se eu parar de escrever aí eu vou mais depressa. Eu faço vários livros por ano. A meta é pelo menos um por ano. Comecei há 3 anos atrás uma série chamada ‘Os meninos dos planetas’, então fiz O Menino da Lua, fiz A Menina das Estrelas, O Menino de Urano e em junho lanço O Menino de Mercúrio e agora faltam 8 planetas então nos próximos 8 anos posso morrer.

Nos anos 60, quando Ziraldo fundou o periódico O Pasquim, tablóide de oposição ao regime militar, uma das prováveis razões de sua prisão, ocorrida um dia após a promulgação do AI-5. Ziraldo falou dessa época e como era fazer criticas ao regime militar. “Eu acompanhei de bastante perto o golpe militar. Foi momento muito importante na história do Brasil, porque a minha geração teve a sensação de que a gente estava redescobrindo o Brasil. Quando a gente estava cheio de esperança de fazer a reforma agrária, a reforma urbana e todas as reformas de base que o Jango estava comandando, veio o golpe militar e nós jornalistas fomos testar resistir com nossas armas a ditadura e fundamos o jornal O pasquim. Evidentemente eu perdi muitos amigos, que foram mais radicais, que foram para a guerrilha. Jornalistas foram presos. A turma do Pasquim pegou mais de 18 processos, eu fui preso 3vezes. Com jornalistas a ditadura não exagerava no trato, mas eu estava numa cela e jogaram uma pessoa, era um   marinheiro da guerrilha, sem nenhuma unha e sem os dois bicos do peito,ferido. Eu troquei um par de sapatos com ele e guardei muitos anos aqueles sapatos.  Graças a uma movimentação pelas Diretas Já, estamos hoje numa democracia plena e retomamos Brasil, que nos prometeram que seria o país do terceiro milênio e certamente será, já somos a 8ª economia do mundo, mas ainda está atrás da Jamaica em termos de esgoto, mas a gente ta tentando concertar isso”.

Em 2008, Ziraldo e outros jornalistas que foram perseguidos durante a ditadura tiveram seus processos de anistia aprovados pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Ziraldo foi indenizado em mais de 1 milhão de reais. À época, Ziraldo afirmou que "o Brasil lhe devia" tal reparação, mas foi bastante criticado. Só faltaram xingar a minha mãe. Você não consegue juntar os seus cacos, mas na internet, onde tenho um blog, quando você é uma pessoa pública, qualquer pessoa pode entrar e dizer o que pensa. É uma exposição. Vez em quando chega cada carta, “Seu ladrão do erário público, devolve o dinheiro, seu canalha”. Sem saber como tudo aconteceu como julgar? Se você não conhece o processo, como dar a sentença? Eu era do Sindicato dos Jornalistas, quando o sindicato informou a mim e mais 20 jornalistas que o processo seria julgado. Porque fecharam ‘O Pasquim’, botaram fogo na redação do jornal, fora bombas nas bancas, fora as bombas nas redações dos jornais, fora os processos. Me ligaram e disseram que meu processo foi aprovado para indenização. Minha aposentadoria é de 1.200 reais e eu disse é um dinheiro bom. Até hoje não recebi os atrasados, nem ninguém. A gente começou a receber há algum tempo uma indenização que eu considero justa”.

Ziraldo recebeu diversos prêmios internacionais, entre eles, o "Nobel" Internacional de Humor no 32º Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas e também a  principal premiação da imprensa livre da América Latina, mas para ele, o que mais lhe dá reconhecimento pela sua obra é o sorriso e o olhar surpreso de uma criança que pergunta se é ele quem escreveu o Menino Maluquinho, lançado em 1980 e que até hoje encanta gerações. “Não troco nenhum prêmio pelo olhar de um menino. E principalmente os pais, as mães e agora até avô que trazem os livros que leram e estão passando para filhos, netos. Na feira de São Paulo, que eu faço desde 1980, toda feira, tem umas 10, 12 pessoas, casadas, com filhos, que eles vão todo ano com o mesmo livro para eu dar visto, ano por ano. Isso é muito gratificante, a minha profissão faz um bem à saúde danado, é uma sorte na minha vida ter acontecido isso”.

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